domingo, 1 de novembro de 2009

Questão de Pontuação

Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.


João Cabral de Melo Neto

- Eu vou embora.
A garota parou na porta do quarto da mãe. Olhava para ela decidida, sem nenhum vestígio de hesitação. Pensara durante dias sobre a decisão que havia tomado.
- Você o que? Isso é mais uma daquelas suas brincadeiras que você diz que eu não entendo, não é?
- Não, mãe. Eu vou embora. Eu estou deixando essa casa. Eu não aguento mais nem um minuto aqui dentro.
Não pretendia ser tão grossa, e nem explicar o principal motivo logo de cara. Mas aquilo já estava entalado na garganta há tanto tempo, suplicando para ser dito...
A mãe da garota parou por um segundo. Olhou-a intensamente. E riu. Uma risada sarcástica que serviu para deixar a menina mais decidida do que já estava.
- Então vá! Não dou duas horas para você voltar correndo.
- Certo, veremos.

A garota pegou uma mochila, que já estava preparada há algumas horas, jogou-a sobre os ombros e deu uma boa olhada em seu quarto. Arrancou uma foto da parede, guardando-a na mochila com carinho.
- Não precisa me ligar.
- Não ligarei.
As duas se fitaram por alguns segundos que pareceram toda uma eternidade.
- Posso saber por que?
- Pode, pode sim. Eu acho que você tem esse direito. - A garota tirou os óculos escuros de que tanto gostava e encarou os olhos azuis da mãe. Respirou fundo. - Você me dá nojo. Você fica aí cheia de mimos pra esse porco nojento que você chama de namorado, aí quando eu vou falar com você, você faz cara feia, como se eu fosse só um animalzinho sujo que veio te importunar. Eu pergunto como você está, quando eu vejo que você não está bem e você me ignora, me corta. E depois quer saber das coisas da minha vida! Como você espera que eu fale da minha vida pra você se eu não conheço a sua?! Aliás, você sabia que a sua outra filha anda me chamando de mãe? Porque quando você resolve ver ela, quem tem que cuidar da criança, sou eu. - Parou pra tomar fôlego. Agora o estrago estava feito. E a garota não queria um estrago pela metade. - Você só diz que eu faço você passar vergonha. Só diz que eu sou grossa. Que eu nunca fiz nada pra você. E você só pensa em você não é? Alguma vez você parou pra pensar que eu estou passando pelo ano mais importante da minha vida? Acho que não, porque o seu ego inflado não deixa, né? Você não me disse uma porra de palavra de incentivo quando eu acordei as seis da manhã pra ir fazer aquela porcaria de prova. Você nem perguntou como eu fui. Você não se importa, não é mesmo? E eu cansei disso. Sabia que quando eu passava três turnos seguidos no colégio, era pra não ter que voltar pra casa?! Era pra não ter que aguentar a sua hipocrisia de fingir pra ele que está tudo bem? Porque, mãe, nada está bem. E é só você que não viu isso ainda.
As duas se olharam longamente. A mãe em silêncio. A filha contendo as lágrimas, sem obter sucesso.
- Cansei de ter que competir com aquele troço que você chama de namorado. Eu não vou fazer você escolher, não mesmo. Eu sou sua filha, eu quero te ver feliz. Mas ao fazer isso que você está fazendo comigo, você pode ter ganhado uma foda fixa, mas perdeu uma filha. E lembre-se que serei eu que vou pagar o asilo.
Por um leve instante, a garota viu a mãe tremer. Se era de raiva ou de medo, não sabia dizer. Ficaram se encarando. A garota com a mochila nas costas e o rosto coberto de lágrimas. A mãe, estática.
- Eu...
Antes da mãe ter o direito de resposta, a fechadura deu sinal de vida. Alguém tinha chego em casa. E ambas sabiam quem era. Era ele. A garota deu uma risada sarcástica.
- Agora sim a trupe está completa. Obrigada pela estadia nesses dezessete anos. Serei eternamente grata. Adeus.
O homem parado à porta, aberta, olhava a cena sem entender nada. Sorriu para a mulher a sua frente. A garota parou. A mulher sorriu de volta. Estava tudo bem para ela. Nada tinha acontecido. Os dois se abraçaram.
- Vocês se merecem.

Ela não aguentava mais ver aquela cena. Era... Nauseante. No mínimo. Fechou a porta com cuidado e desceu as escadas do prédio o mais rápido que pode. Abriu o portão com uma velocidade incrível e correu. Uma, duas, três quadras. Precisava sair dali. Rápido.
Parou somente em uma rua totalmente escura e desconhecida. Procurou pela placa que indicava o nome da rua. Achou-a e constatou, pelo ângulo em que a mesma se encontrava, que algum carro já havia passado por cima dela. Mas ela não se importava.
Pegou seu celular e discou o primeiro número que veio a cabeça. Um número que ela sabia que poderia contar, sempre, não importa a situação. Ligou para seu pai.
- Pai? Pode vir me buscar?
- Aconteceu alguma coisa?
- Saí de casa.
- Aonde você está?
A menina leu a placa com pouco entusiasmo. Os acontecimentos recentes ainda atordoavam-na. Não demorou muito para o pai da garota chegar. Não fez perguntas. Apenas abraçou-a.
- Vem, eu te levo pra casa e amanhã você me conta o que aconteceu.
A palavra ecoou na cabeça da menina. Amanhã... Ela tinha medo do amanhã.



Uma pequena palavra foi trazendo-a lentamente à consciência...
- Mãe?
Não, porra.
- Mãe?
Caralho, que pessoa insistente.
- Acorda. Eu quero fazer xixi.
Agarrou o celular. Eram quatro da manhã. Então era isso, estava sonhando esse tempo todo... Sonhos...
- Vai sozinha.
- Não. Eu tô com medo.
- Chame a sua mãe.
- Ela falou pra eu chamar você.
A garota levantou-se a contragosto.
Sonho... Era só um sonho.



Ah como ela queria que fosse verdade...

sábado, 1 de agosto de 2009

Descansa em paz.

A garota entrou voando no quarto. Jogou a sua mochila em qualquer canto e desabou. Não se importou com a dor nos joelhos quando caiu em cima de algumas canetas jogadas ao chão. A dor que ela sentia era mais forte, mais intensa, mais complexa do que qualquer caneta poderia proporcionar. Ela desabou e chorou. Chorou como nunca havia feito na vida. Chorou intensamente. Chorou até seus olhos pedirem algum sossego.

Ela nunca pensou que ele, justo ele iria tão cedo... Ele, que estava tão bem há duas semanas... Ela nunca pensou que fosse enterrar ele.

"A vida é injusta, frágil e curta. E você sabe disso. Há tempos. Controle-se."
"Controlar? CONTROLAR? Você tem o direito de ter esse ataque agora. Chore. Chore mais, que a dor passa."
A batalha interna era intensa. Queria se mostrar forte queria consolar os outros amigos, queria ligar para todos eles dizendo que tudo iria ficar bem. Queria chorar até a alma, queria gritar... Querer nem sempre é poder, meus queridos, lembrem-se disso.
A garota havia parado de chorar. Levantou-se do chão amaldiçoando aquela zona de materiais escolares no chão. Jogou-se na cama, olhou para o teto. Não queria olhar para o resto do quarto. Não podia olhar para o resto do quarto, tudo o lembrava. Tudo. Cada foto, cada pôster...

Foi distraída momentaneamente do seu martírio por algo vibrando no bolso. Amaldiçoou o celular também, mas parou no ato ao ver o remetente da sms que havia lhe distraído. Ela não tinha se esquecido de que tinha amigos que estavam se importando, mas não achou que eles fossem consolá-la agora, afinal todos estavam precisando de consolo. Abriu a sms preparada para outra onda forte de emoções.
"Fica bem, tá? Qualquer coisa liga. Te amo, não esquece." Simples, sucinta, direta, mas o estopim necessário para retomar a crise de choro que tinha acabado de controlar.
Tentou controlar, mas o pensamento foi mais forte, e no segundo seguinte estava vendo o rosto de cada um de seus amigos, uma voz sarcástica no fundo da sua mente perguntou "quem vai ser o próximo?". Odiou-se por aquele pensamento sujo. Pensamento que não era seu. E então o rosto de seus amigos foi sumindo, que nem fumaça, e outro rosto apareceu. Um rosto sorridente, alegre, vivo. Os olhos brilhando. E ele falou. Falou uma frase conhecida da garota. Uma frase que ele sempre falava pra ela. Uma frase que ela adorava ouvir, porque sempre era seguida por um abraço forte e reconfortante. "Não chora." Não chora. As duas palavras ecoaram na mente da garota. E outros rostos foram aparecendo, todos dizendo a mesma coisa. Sentiu-se abraçada. Sentiu-se forte. Ela tinha amigos, que se importavam com ela, que a consolariam, que a ouviriam dizer o quanto ele era importante para ela, que chorariam com ela, chorariam no ombro dela.
E nesse momento ela sentiu-se feliz. Não era o fim do mundo, afinal. De fato, uma das colunas de sustentação de seu mundo tinha desabado de forma trágica e repentina, pegando-a de surpresa, mas ainda havia outras. E ela sabia que era uma coluna do mundo de outras pessoas. Não poderia ruir agora.

Levantou da cama, sentiu-se fraca, vazia. Riu ao lembrar que há algumas horas atrás sua maior preocupação era um plano de estudos para as férias forçadas, que é claro que ficaria apenas no papel. Ligou o notebook. Não tinha vontade nenhuma de entrar na internet. Nem sabia por que estava fazendo aquilo. Uma esperança vaga de ver a janela dele subindo no MSN, dizendo "PEGADINHA DO MALAAAAANDO!", mas nenhuma das janelas que subiram foi a dele.
Umas duas com um reconfortante "como você tá? =/", mas a maioria absoluta de pessoas alheias a clara ruína emocional em que ela se encontrava pessoas que possivelmente nem sabiam do que tinha acontecido... Aquilo a enraiveceu, e ela não sabia por que. Respondeu todas, não porque queria, mas por educação, e saiu do MSN.

E a verdade acertou-a, como um trem bala pegando um passarinho desavisado. A janela dele não iria subir nunca mais. "Nunca", pensou, e dessa vez não fez forças para controlar as lágrimas que desciam sem piedade sobre o rosto já bastante vermelho e inchado.
Junto com a verdade, veio a dor. A dor do "nunca". Mais forte e mais intensa do que ela achou que fosse capaz de sentir. Mais forte do que tudo que ela já havia sentido naquele dia. Naquela desgraça de dia.
"Era pra ser um dia feliz, porra!" gritou a plenos pulmões. "por que os meus amigos? POR-QUE-OS-MEUS-AMIGOS?" e uma dor na garganta somou-se a todas as outras dores. Mas ela não se importava. Continuou gritando, e forçou-se a abafar os gritos com um travesseiro. A última coisa que queria agora era vizinho intrometido vindo ver se estava tudo bem.
Porque não estava tudo bem.
Não ia ficar tudo bem.
Ele tinha partido. Partido desse mundo. Nada iria ficar bem.

A garota sentiu uma súbita vontade de dizer para todos os seus amigos o quanto eram importantes para ela. Mas não tinha forças e nem palavras para isso. Fez uma nota mental de fazer isso no futuro, deitou-se na cama, pouco se fodendo se estava de jeans ou de pijamas e entregou-se ao choro novamente.
E dormiu. Dormiu desejando com todas as forças que aquilo tenha sido o pior pesadelo da sua vida, e que iria acordar atrasada para o colégio.

Mas não era um pesadelo. Não era esse tipo de pesadelo. Era um pesadelo real. Real, intenso, e que não vai passar, por um longo tempo.











João Tiago Machado, in memoriam.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Nome de gato é incluído em lista de beneficiários do Bolsa Família

Chefe do programa em cidade do MS inscreveu animal. Exonerado, ele diz que está arrependido e que quer devolver o dinheiro. 

O nome de um gato foi incluído na lista de beneficiários do programa Bolsa Família no município de Antônio João, em Mato Grosso do Sul. O coordenador do programa, Eurico Siqueira da Rosa, de 32 anos, que fez a inscrição com o nome do animal, foi exonerado do cargo e está sendo investigado em um inquérito no Ministério Público Estadual. Segundo ele, o gato, chamado “Billy”, pertencia à esposa.
 
O ex-coordenador diz que está arrependido e que pretende devolver o valor que recebeu, segundo ele, no período de março a setembro de 2008.
 
“Estava passando por necessidades financeiras. Então, se colocasse o nome lá, R$ 20 (valor pago por mês) a mais me ajudaria. Meu salário era baixo. (...) Foi um momento de fraqueza. Jamais deveria ter feito isso, mas infelizmente não sei explicar pra ninguém o motivo de ter feito isso”, disse. 

Ele diz que ganhava R$ 500 por mês como coordenador do Bolsa Família na cidade e que o gato morreu. Para fazer o cadastramento no programa, Rosa diz ter colocado no cadastro seu sobrenome e o da mulher, que, segundo ele, não sabia da fraude.

Fonte: Globo.com

Depois nego reclama.
Eu não sei por que, mas essas coisas ainda me impressionam.

EM TEMPO: Querem a cabeça da Madonna. Veja aqui.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

compro conversível vermelho modelo desses carros antigos.
objetivo? hit the road.
caronas também são aceitas.

cansei dessa porra toda.


Throw it away, forget yesterday, we'll make the great escape!
We wont hear a word they say. They don't know us anyway...
Watch it burn, let it die, 'cause we are finally free tonight
[Boys Like Girls - The Great Escape]

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Jay Vaquer.

"Longe Aqui"

Os pais de sua namorada exigiram o fim daquela relação
Que já durava cinco meses de muito carinho e reprovação

Sempre que se chateava cortava os braços com gilete pra chamar atenção
Tinha carência afetiva, achava que seus pais gostavam mais do irmão

Um dia olhou pela janela, imaginou como seria o seu vôo até o chão
Mas quando pensou na sujeira que ela causaria, desistiu, foi ver televisão

Tinha que engravidar, criar, envelhecer, morrer... Como todos esperavam
Tinha que renunciar, agradar, obedecer, vencer... Como todos desejavam

Até que ela partiu
Ela partiu pra bem longe
Pra distante o bastante pra suportar

Ela partiu...
Ela partiu pra bem longe
Tão distante parada no mesmo lugar

Ela partiu...
Ela partiu ao meio

Ensaiou o que diria se um dia fosse artista homenageada no Faustão
Enxugaria as lágrimas, abraçaria amigos e a mãe teria o seu perdão

Voltando a realidade, ela encontrava um quadro que não tinha muita solução
Se achava velha, muito nova, gorda ou muito feia
Sempre inadequada pra situação...

Tinha que engravidar, criar, envelhecer, morrer... Como todos esperavam
Tinha que renunciar, agradar, obedecer, vencer... Como todos desejavam

Até que ela partiu
Ela partiu pra bem longe
Pra distante o bastante pra suportar

Ela partiu...
Ela partiu pra bem longe
Tão distante parada no mesmo lugar

Ela partiu...
Ela partiu pra bem longe
Pra distante o bastante pra suportar

Ela partiu...
Ela partiu pra bem longe
Tão distante, onde nunca deixou de estar

Ela partiu...
Ela partiu ao meio.





me reflete. sem mais.

Jay Vaquer é muito bom. uma das poucas coisas nacionais que eu realmente aprecio. Download dos cds do cara neste link aqui.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Augusto dos Anjos
"Versos Íntimos"

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga, 
Apedreja essa mão vil que te afaga, 
Escarra nessa boca que te beija!